A Assemblagem do Vampiro

     A lei da conservação da energia mostra que a energia não pode ser criada nem destruída. Os feiticeiros concordam com esse ponto e adotam o ângulo alternativo que surge naturalmente em relação à energia e suas leis imutáveis. Este é o “Terceiro Ponto”, como é chamado. A energia não pode ser criada porque a fonte de toda a energia é uma matriz de potencialidade conhecida como matéria escura ou ,como alguns a chamam, ‘inexistência’. Este é um termo errôneo que cheira ao pensamento cabalístico da velha escola e não captura verdadeiramente esse mistério perceptivo e energético de que a matéria escura é e não é.
      Nenhum ser vivo pode auto gerar sua energia, e concordamos com os antigos feiticeiros toltecas de que deixaram os seres humanos com poucas opções em relação ao acúmulo de energia adicional, assim como o armazenamento e a economia de energia. Se começarmos com a suposição de que nós, como seres geradores de energia, não podemos realmente criar energia a partir do zero, e que para realizar os atos incompreensíveis da feitiçaria que tanto desejamos, precisamos ter mais energia que o normal, então chegamos à conclusão de que devemos ter uma maneira de simplesmente obter e economizar mais energia que atualmente temos.
      De acordo com os caminhos dos feiticeiros toltecas, uma redistribuição energética de nossa energia inicial é a primeira tarefa que devemos realizar antes de podermos passar para qualquer outra coisa. Os toltecas e outros feiticeiros sul-americanos entenderam que começamos nosso crescimento de vida com uma quantidade específica de energia limitada e que para realizar façanhas na feitiçaria temos que redirecionar essa energia para canais diferentes daqueles normalmente utilizados no decorrer de nossas vidas diárias.
      Eles argumentaram que a maior parte de nossa energia é continuamente utilizada para sustentar ou dar sentido ao mundo em que vivemos. Isso se estende do ato real de organizar os dados sensoriais até o investimento em um conjunto particular de crenças ou aspectos sociais e normas. Todos esses atos exigem nossa atenção e essa atenção exige energia. Uma redistribuição de energia implica um desvio conscientemente escolhido, longe daqueles caminhos já estabelecidos e rotineiros, perceptuais e mesmo físicos, que nossa energia normalmente segue por hábito e condicionamento.
      É por isso que os seres humanos necessitam de experiências únicas. Quando algo realmente novo é experimentado, a energia desse alguém é retirada de seu caminho de rotina e uma expansão da consciência se segue. Essa expansão da consciência é tipicamente associada a uma experiência espiritual ou religiosa. Posso dizer-lhe que esta associação é um erro muito comum, mas terrível. A liberação de energia e a expansão da consciência não tem nada a ver com algo espiritual. A feitiçaria não é religiosa ou espiritual de forma alguma, e os feiticeiros, particularmente aqueles com inclinação ao Caminho da Mão Esquerda, estão refazendo feitiçarias do passado e estabelecendo novas feitiçarias do futuro que tratam exclusivamente de como acumular quantidades adequadas de energia para a extensão física da vida.
    Nossa posição do agenciamento indica que, embora não possamos mudar o próprio tecido da realidade energética, podemos modificá-lo. Este é o próximo passo na realização do feiticeiro sobre a lei da conservação de energia. É que a energia não pode ser criada nem destruída, mas pode ser redirecionada, armazenada e modificada para servir uma infinidade de propósitos. Esses propósitos não são os do indivíduo comum, mas giram em torno das abstrações da feitiçaria, embora às vezes pareçam ser dirigidas por desejos comuns. A preservação do eu para a busca da evolução não humana não é o mesmo esforço para recuperar ou reter a juventude com o espírito de nostalgia inútil e auto-indulgente. Um desses propósitos é estender a existência física e a consciência individual o mais indefinidamente quanto possível. Isto não é apenas completamente concebível, é também um efeito colateral direto e inevitável da prática da feitiçaria.
Com a liberação de nossa consciência comum e a expansão de nossa capacidade de perceber, surge uma mudança física real em um nível bioatômico dentro do corpo. À medida que aprendemos a nos relacionar com o tempo de maneira diferente, nossos corpos reagem e o envelhecimento comum simplesmente diminui. Existem inúmeras práticas de feitiçaria que se relacionam diretamente com a criação dessas condições, mas essencialmente, todas as práticas de feitiçaria terão esse efeito. Há alguns, claro, que são tão cansativos que, embora levem a um poder inimaginável, eles também têm o infeliz efeito de levar à uma condição de envelhecimento rápido.
      A essência do Caminho da Mão Esquerda é manter a consciência individual intacta indefinidamente e, de preferência, enquanto estiver na forma física original. O Caminho da Mão Esquerda é um caminho de poder para o indivíduo forte o suficiente para trilhá-lo. No reino das sombras, a igualdade é uma mentira e uma perversão conceitual da ordem natural. Evidentemente, a imortalidade física permanente ainda não é possível, mas é perfeitamente concebível que dentro de poucas décadas os seres humanos tenham descoberto e implementado os meios para criar regeneração celular total. Isso combinado com as mais poderosas técnicas de feitiçaria conhecidas forma uma fusão virtualmente imbatível, mas por enquanto devemos aplicar nossos esforços de maneiras ligeiramente diferente disso até que o futuro seja sonhado como verdade.            Existe um certo ponto, ou limiar energético, que todo feiticeiro do Caminho da Mão Esquerda abordará. O ponto de assemblagem terá se movido um número de vezes suficiente e longe o suficiente ao ponto de mais energia ser necessária para continuar no Caminho da Mão Esquerda. Não somente mais energia será necessária, mas uma nova maneira de se relacionar com a busca da feitiçaria será experimentada neste nível. Quando o mago negro se torna único, ele se aproxima do domínio da própria escuridão e, consequentemente, assemelha-se à criatura que conhecemos como o vampiro. Isso não é uma inevitabilidade total, mas o caminho do Deificador da Morte é um dos caminhos do vampiro.
      Ao longo de todo o trabalho de Carlos Castaneda, ouvimos sobre como economizar e armazenar energia. Don Juan literalmente explana aos seus aprendizes de feitiçaria que a energia com a qual está se lidando é tudo o que existe. Convenientemente, essa é a coisa mais perfeita para se dizer aos jovens aprendizes de feitiçaria quando eles estão embarcando no caminho que leva à Nod, mas preservar e armazenar a energia pessoal eventualmente se torna um ato aperfeiçoado que a pessoa emprega continuamente, como um gato que constantemente se limpa como forma de hábito e instinto natural.
      No livro de Castaneda, A Arte de Sonhar (1993), encontramos um feiticeiro que desesperadamente exigiu que ele recebesse energia extra de outro feiticeiro para sustentar sua vida, fazê-la duradoura. A implicação desse ato de transferência de energia contradizia completamente o que Don Juan havia dito a seus aprendizes o tempo todo. Isso provavelmente aconteceu porque ele queria afastá-los das práticas repugnantes dos antigos feiticeiros, aqueles seres que alcançaram uma forma de imortalidade, e ainda influenciam o curso atual de nossas feitiçarias hoje.
      O desafiante de quem falamos aqui usou o excesso de energia dado a ele livremente por outro feiticeiro com o único propósito de prolongar sua vida. Isto é obviamente um vampirismo enérgico, e assim como os vampiros de antigamente tinham que ser convidados de bom grado para a residência da vítima em potencial, os vampiros feiticeiros também esperam por um convite natural, primitivo e às vezes sutil, antes de devorarem suas presas. O sinal é geralmente um gesto flagrante da vítima que forjará um vínculo temporário e inconfundível entre ela e o feiticeiro vampiro.
      Os antigos feiticeiros eram de fato manipuladores especializados em força vital, e estou convencido de que os contos modernos de vampiros vieram diretamente de histórias relacionadas a esses feiticeiros toltecas e sul-americanos e outros ao longo da história. O vampirismo, em parte, é a arte que se preocupa com a extensão individual da vida através da manipulação da energia vital e da manipulação da consciência de alguém em direção a objetivos estritamente não comuns. O “defunto” de Castaneda é o exemplo perfeito de um feiticeiro que estendeu sua própria consciência individual muito além do que faz as pessoas medianas, e realizou isso com técnicas de feitiçaria que eram as técnicas parentais daquelas que hoje empregamos.
      O mundo mudou de maneira inacreditável nos últimos cem anos, e nossa tecnologia acelerada só ajudará aqueles de nós que habitam na escuridão. Não se oponha ao futuro e às maravilhas que ele possa ter no reino dos assuntos humanos comuns, pois o nosso mundo de crepúsculos e sombras alimenta-se da energia gritante do mais mundano, e somos capazes de fazer bom uso daquilo que passa despercebido ou descartado entre os vivos.
Eu não vou entrar nos detalhes sobre sangue versus energia como uma escolha de vampuros para o sustento porque tem havido muita literatura dedicados a esta questão. Muitos escritores sobre o tema fizeram a si mesmos e seus seguidores “góticos” sentirem-se moralmente justificados em suas tendências, transformando de alguma forma o ato de atacar a vítima em uma masturbação mental nobre e sombriamente romântica. Para o feiticeiro, existem seres humanos comuns e outros feiticeiros. Ovelhas e lobos.
Primeiro de tudo, você não experimentará com sucesso nenhuma forma de feitiçaria vampírica até que os fundamentos da feitiçaria em si sejam dominados, e em segundo lugar se nesse momento você ainda se sentir culpado por tomar a essência vital de outros seres geradores de energia para prolongar sua própria vida, então você provavelmente deverá considerar outros métodos. Os seres que ainda retêm a consciência individual hoje, após incontáveis ​​séculos, mal têm uma lembrança de como é ser humano. Eles cultivaram estados de ser que desafiam a forma humana e, eventualmente, alteraram sua própria forma de energia para sempre. Este é apenas um dos muitos caminhos que a evolução tomou na luta pela existência e dominação? O caminho do feiticeiro vampírico poderia ser muito bem apenas um seguimento escuro rumo ao camimho maior para a imortalidade e haver outras configurações energéticas ‘estranhas e desconhecidas’ disponíveis para o adepto das trevas.

 

-A Assemblagem do Vampiro, Nox Infernus, Alexander Dray-

 

Traduzido por Dom Wilians

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