As Deusas do Sitra Ahra

A importância dos aspectos sinistros do feminino no despertar e caminhada é tamanha que esse trabalho foi escrito não somente para “falar sobre o assunto” mas trazer profundas abordagens e práticas com essas deusas em várias e diferentes compilações de autores relevantes no assunto. Esse trabalho também é o resultado de uma longa investigação e profunda devoção aos aspectos sombrios e sangrentos do universo feminino nas Qliphoth.que tive até aqui. Por anos estive em diferentes projetos mágicos onde pude explorar os ensinamentos de deusas como Naamah, Hecate, Ereshigal, Lilith, Tiamat e outras. Essas deusas encarnam a vontade, sexualidade e paixão sob uma máscara de morte, aborto e esterilidade; elas guiam o praticante através de portais da zona mais profunda e distante do astral até o Sabá das Bruxas para beber o profano sangue do Vinum Sabbati que envenena a Ilusão e abre a percepção para dimensões infernais de poder.
 
 
A profunda reentrância da anima universal que as deusas escuras guardam é a fonte primordial de Heka, em seus domínios noturnos não existe barreira espiritual para a magia. Trabalhar com o feminino na Via Sinistra é um mergulho na escuridão da noite em busca da sSophia Caída, uma temporada nas terras astrais sem limites das legiões de súcubus, incubus e vampiros afim de melhor conhecer a própria natureza. Porém toda essa tarefa iniciática exige mais do que um ânimo leve, é preciso vontade e determinação na hora de enfrentar a própria sombra e medos íntimos que fazem prova do que o praticante é em essência e superar tais coisas para se tornar candidato à gnose dessas deusas.
 
 
Para obter o conhecimento libertador e iluminador é preciso ter a coragem e firmeza de primeiro descer pelo labirinto tortuoso do reino do fogo infernal ao encontro dessas deusas, assim como fez Prometheus ao acender o archote no núcleo incandescente da terra. Esse é um ato de busca por estados superiores de consciência que deve ser feito com cautela e previdência, e para isso o presente trabalho foi escrito. Para mim, um trabalho assim é uma mensagem codificada das próprias deusas para aqueles que buscam, se não, nunca deve ser publicado. Eu me propus a encontrar meu próprio entendimento sobre essas deusas e o lado escuro da espiritualidade nas Qliphoth, ora com devoção sobre altares, ora operando em rituais que recebi, e glosei tudo que pude ouvir e ver para, então, escrever essas linhas como uma transmissão gnóstica que transcende minha própria concepção do assunto. Esse trabalho foi criado com a intenção de compartilhar experiências que inflamaram a centelha negra dentro de mim, então considerando o que foi dito acima, eu convido você a participar dessa jornada. Se você quiser experimentar um vínculo significativo com o lado sombrio do feminino e estiver disposto a explorar a Via Sinistra em um processo de autodeificação utilizando as Qliphoth como experiência, então aceite o convite e coloque-se na caminhada conosco.
 
 
O Sitra Ahcra e a Natureza das Qliphoth
 
 
Obviamente, não há necessidade de reproduzir conceitos sobre as Qliphoth que já foram largamente explorados em uma grande quantidade de obras kabbalísticas, no entanto a natureza dessas forças sinistras é algo que permanece defasado, embora seja um importante preâmbulo da sabedoria oculta da Via Sinistra. Por esse motivo começaremos abordando esse assunto, visto sua utilidade para compreendermos também as deusas escuras no contexto da ‘Árvore da Morte’. As Qliphoth (qlifot, qlippoth, kelipot, do hebraico קְלִיפּוֹת, plural de qliphah, klipa, kelippa) literalmente significam “conhas” ou “cascas” e representam os reinos malignos no Sitra Achra, o Outro Lado. Foi o conflíto de dois princípios de Ein Sof (A Luz Ilimitada) conhecidos como Sheyesh bo Mahshavah (o influxo criador ou Luz Pensante) e She-Ein bo Mahshavah (o refluxo destruidor ou Luz Não Pensante) que concebeu as Qliphoth como reinos. Sumariamente essas forças conflitantes coexistiam em Tehiru, o espaço primordial, e She-Ein bo Mahshavah era um mórbus negro misturado à Luz de Ein Sof. Havendo a inciativa da criação cósmica, ocorreu o processo (Tzimtzum) em três etapas: primeiro a distinção de um ponto no espaço primordial, depois a retração circular criando um vácuo entorno desse ponto e por fim a emanação de um raio de luz linear de Ein Sof para dentro desse espaço circular recém-aberto. O resíduo da luz (reshimu) deixado por todo espaço primordial de Tehiru ao abrir esse vácuo, despertou o poder divisório de She-Ein bo Mahshavah criando, assim, os mundos e suas partes (vasos) separados em fronteiras para que recebessem a luz vital individualmente.
 
 
O primeiro dos Quatro Mundos a ser criado foi Atzilut, Emanação, um mundo ainda ligado a substância indiferenciada de Ein Sof. Esse é o passo da criação cuja qualidade é o efeito de dar à força infinita um limite, é o Yod do Tetragrammaton que configura e organiza todo o Mundo da Confusão (Olam ha-Tohu). A partir de Atzilut é emanado o segundo mundo conhecido como Beriah, Criação, onde reside toda Kochot (força vital) para preencher as esferas ou vasos (sephiroth), é o He gerador do Tetragrammaton. O terceiro mundo é Yetzirah, Formação, que foi criado para servir de cisão ou fronteira entre as esferas (sephiroth) estabelecendo o diferencial de poder de cada uma, é o Vau do Tetragrammaton. E o quarto e último mundo é Assiah, Manifestação, assumindo a qualidade de autodefinição e conclusão de todo processo, o He final do Tetragrammaton.
 
 
Essa criação descendente foi, porém, rivalizada pela força de retração de She-Ein bo Mahshavah que, procurando retornar ao estado de Vazio de Ein Sof, acompanhou todo o processo da criação refletindo-o ao inverso e projetando esse reflexo em um Outro Lado (Sitra Achra) na forma de escaninhos que comportam as radiações destrutivas e anticósmicas nomeadas de Qliphoth. O historiador e kabbalista Gerschom Scholem escreveu: “as luzes irrefletidas (Luz Negra), construíram estruturas próprias, mundos demoníacos das Qliphoth, cuja intenção é destruir o que a Luz Pensante (Sheyesh bo Mahshavah) forjou. Essas forças são como dragões morando no Abismo”.
 
 
As Qliphoth e suas estruturas entrópicas são dispostas em um modelo que serve como um mapa detalhado dos planos demoníacos. Esse modelo tem as dez conhas e seus vinte e dois caminhos horizontais, verticais e diagonais baseados na geometria da ‘árvore do retorno’ do kabbalista Isaac Luria, o que faz seu uso um mapa para a iniciação em uma jornada rumo ao Ventre do Dragão, o caos primordial, diferenciando do modelo da ‘árvore da emanação’ criado por Rabi Moshe Cordovero que é comumente usado na Kabbalah para representar o processo sephirótico da criação onde o homem se concentra no ponto inferior para receber os raio descendente da Luz divina.
 
 
O Anticosmos
 
 
A Kabbalah com sua estrutura das características gerais do universo dentro de um modelo ideográfico chamado Etz Chayim, a Árvore da Vida, se tornou um caminho experimental da sabedoria oculta em todo o ocidente. Esse modelo foi desenvolvido no século XII por místicos espanhóis e francêses que transformaram a Tradição Hebraica em um avançado sistema esotérico. Utilizando a geometria, o som e os números para explicar a criação e evolução cósmica relacionadas ao processo objetivo de transformação humana, o modelo da Etz Chayim estabelece inicialmente que os principais estágios da criação e expansão cósmica foram: a posição central de um ponto da luz ilimitada, a retração equidistante dessa luz para formar uma fronteira esférica e por fim a iluminação desse vácuo numa trajetória linear.
 
 
A radiação ou emanação para fora desse centro criou o mundo da Emanação, Criação, Formação e Manifestação onde o homem passou a existir de forma arquetípica, espiritual e física. A chave para entender essa expansão e mundança está no quinto verso do capítulo I do Sefer Yetzirah: “Dez sefirot do Nada; sua medida é dez que não tem fim. Uma profundidade de começo, uma profundidade de fim; uma profundidade de bem, uma profundidade de mal; uma profundidade de cima, uma profundidade de baixo; uma profundidade do leste, uma profundidade do oeste; uma profundidade do norte, uma profundidade do sul.” Essas passagens do Sefer Yetzirah apontam para as quatro dimensões em que o homem existe e alude uma quinta (“uma profundidade de bem, uma profundidade de mal”) que é a força motriz de toda mudança cósmica ou o ‘todo’ com o qual tecnicamente a humanidade busca união para se harmonizar.
 
 
O bem no conceito da criação dimensional é o emanador que atua como substrato receptivo da luz contida ou reshimu, ele é a voz que pronuncia o verbo da criação e continua impulsionando a expansão cósmica. O mal, por sua vez, como radiação negativa, retração e destruição é projetado nas Qliphoth, as conchas vazias, e é definido como a antítese caótica das quatro dimensões. Sendo destrutivas e divisórias, as Qliphoth acabam desempenhando um papel importante por romperem limitações que dificultam a exploração de níveis mais ‘profundos’ da existência. Além de reverter o processo descendente da criação em uma ação de retorno ao Vazio, as Qliphoth possibilitam o homem a trabalhar nas ‘profundidades’ das quatro dimensões nesse processo e ter acesso ao conhecimento proibida do ‘bem e do mal’ na quinta dimensão. Ao estudar a Etz Chayim, a maioria dos kabbalistas considerou que uma cortina cobre a realidade superior (tikkum) fazendo com que a humanidade subsista alheia à sua própria gênese. Esse véu é o mencionado ‘erro do princípio’, a grande Ilusão que condiciona as pessoas viverem em um estado comatoso de consciência. Para ver além dessa Ilusão é preciso remover essa cortina. Por isso as Qliphoth e as deusas negras com suas características de divisão e destruição têm um papel significativo no despertar e na caminhada espiritual na Via Sinistra.
 
 
Porque Trabalhar Com As Deusas e as Qliphoth?
 
 
Cada uma das Qliphoth é um caminho experiencial que atende ao seu significado literal de ‘concha’. A formação interior de uma concha lembra o caótico universo fractal e o seu núcleo é totalmente vazio contra a face de elementos externos em sua casca. Toda a trajetória da luz imanifesta da criação se contraindo na unidade em Kether de onde a manifestação é feita através da separação em dois princípios criadores (Chokmah, o Abba, Pai, e Binah, a Imma, mãe) é rralizada em caminho inverso em cada qlipha. A concha é um símbolo da Iniciação/Viagem na Via Sinistra ou Caótica, pois sua estrutura representa o processo de libertação que o homem deve seguir como uma volta ao seu estado primordial: primeiro passando pela casca da concha que representa a matéria grosseira, depois explorando o universo fractal de sua espiral interior que é o mundo qliphótico e, finalmente, realizando a dissolução no vazio (bohu) em seu núcleo. Na Via Sinistra, buscar aproximação com o Vazio é também potencialmente se tornar livre para manifestar a Vontade caótica no universo quando desejar. Esse estado é alcançado à medida que o praticante inicia sua viagem guiada pelas deusas do submundo das Qliphoth. Contudo, consideramos que esse caminho é muito mais do que uma inversão obscura da criação descendente na Etz Chayim com as equivalentes dez esferas e vinte e dois caminhos horizontais, verticais e diagonais em uma “Árvore do Morte”, se trata de uma prática espiritual e mágica que sincretizou componentes obscuros do misticismo dos antigos sumérios e egípcios, do gnosticismo secular visto hoje como herético e continua sofrendo a influência e inspiração de uma gama de tradições espirituais em todo mundo. A prática mágica com as Qliphoth tem um horizonte panorâmico em constante expansão de ideias, sendo que as diferentes realizações que essa prática traz, amplia cada vez mais os conceitos sobre a Via Sinistra e inclui elementos novos ao sistema de trabalho mantendo-o sempre dinâmico e adaptável, assim.contribuindo ainda mais com a evolução do adepto. Nesse contexto entra as deusas escuras que são o desdobramento, tradução e diversificação da essência das Qliphoth, ou seja, elas são as radiações mais completas, bem definidas e poderosas de cada concha que podem acompanhar o praticante no processo de Inicião/Viagem ao Vazio. Pode-se dizer que as deusas negras trabalham diretamente com She-Ein bo Mahshavah, a Luz Negra consumidora da Ilusão, como se fossem bruxas celebrando o Sabá com suas danças anticósmicas entorno da grande fogueira noturna.
 
 
A Ávore Sextupla ou Árvore do Conhecimento
 
 
A conexão geométrica de Da’at com a Árvore da Morte serve de chave para entender melhor a natureza das qliphoth em relação à evolução espiritual do homem. Se postularmos o hexagrama como base da criação, então seremos capazes de observar a fundo a primeira seção do Zohar chamada de Bereshit (palavra normalmente traduzida como “no princípio”) e assim compreendermos porque a Árvore Sextupla é uma abertura para a ingressão e regressão no Sitra Achra. Essa seção do zohar descreve o ato da criação em seis estágios ou ‘dias’, sendo que o sexto foi dedicado a formação do homem. No princípio (bereshit) deus criou ha-shammaim (os céus) ve-et ha-aretz (e a Terra), ou seja, ele modelou o hexagrama unindo o reino superior ao inferior.
 
 
A palavra Bereshit pode ser decomposta em Barashit (ele criou seis) para que a Árvore Sextupla seja essencialmente entendida como a geometria base do Zohar. Ao girar sua coluna central, o Diagrama da Árvore Sextupla produz um cubo com as diagonais estendidas fechando uma espécie de golfo entre as esferas Chokmah, Binah, Chesed e Geburah. O cubo, muito importante na geometria esotérica, representa o elemento terra, e suas três linhas cortando o centro criam o hexagrama -um antigo símbolo de Da’at como Sol místico antes da queda- unindo o divino ao terreno. Essa mesma união pode ser observada nos montículos megalíticos que são as construções cúbicas mais antigas que ainda existem e que representam geometricamente a Árvore Sextupla em suas estruturas monumentais.
 
 
A construção desses megalíticos obedecia alinhamentos solsticiais, equinociais e à configurações de constelações talhadas em blocos ornamentais em volta dos monumentos, afim de que portais energéticos para aquela região fossem abertos. O caráter sexual desses monumentos representando uma estrutura vaginal da Terra engolindo o Sol com o propósito de causar o renascimento espiritual dos iniciados que participavam das celebrações, pode ser sincretizado com a dinâmica do hexagrama de D’aat na Árvore Sextupla.
 
 
Daleth, a primeira letra de Da’at, foi o portal para fora do estado sedentário da estase, a passagem para o desconhecido (o outro lado como mundo além do jardim) que se abriu no Éden quando o fruto proibido foi devorado. A abertura desse portal, como transgressão inicial, incitou a busca e desejo por conhecimento, foi o primeiro passo rumo a exploração de remotos páramos num mundo selvagem. Ao contemplar a outra face da Terra e ter a experiência de Ayin, a segunda letra de Da’at que simboliza a visão, o conhecer e o experimentar, o homem pôde se tornar, de fato, consciente de si à parte do todo e controlar o seu próprio mundo, agora um lugar que ele próprio escolheu para viver, tornando-se verdadeiramente o senhor da Terra. Ele construiu sua nova habitação e através da letra Tau, a última letra de Da’at, que representa a conclusão ou síntese do conhecimento, que, então, foi selada sua posição de cocriador capaz de usar o conhecimento para influenciar e causar mudanças no mundo.
 
 
 
Zona Morta (Projeto Zarzax)
Dom Wilians, Lotan, 2019
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